Da demissão ao destaque nas feiras: a virada do Chef Dan que conquistou Campo Grande com tradição e coragem

O cheiro de açúcar queimado na medida certa, o estalo da colher quebrando a crosta do crème brûlée e a fila que se forma antes mesmo da abertura oficial da feira. Quem passa pela banca do Chef Dan talvez não imagine que, há poucos meses, aquele mesmo homem enfrentava o desemprego, a depressão e a ameaça de ter a energia elétrica cortada em casa.

Danilo Marques de Oliveira Matos, 44 anos, construiu durante mais de 20 anos uma carreira sólida na área comercial. Começou cedo, aos 13, ajudando em pizzaria, aprendendo sobre trabalho antes mesmo de entender o que era futuro. Mudou-se de São Paulo para Campo Grande em 2013 e seguiu na rotina intensa das vendas. Mas havia algo que nunca saiu do lugar: o desejo de cozinhar.

Em 2015, decidiu se aproximar desse sonho ao fazer um curso de Gastronomia Contemporânea Regional na Universidade Católica Dom Bosco. Aprendeu técnicas, ampliou repertório, mas não conseguiu ingressar profissionalmente na área. A estabilidade na área comercial falou mais alto.

Até que ela acabou.

Quando os “nãos” começam a pesar

Entre o fim de 2024 e o início de 2025, veio a demissão. O que parecia apenas uma fase difícil se transformou em uma sequência de negativas. Currículos enviados, entrevistas sem retorno, promessas que não se concretizavam.

A insegurança cresceu. A autoestima diminuiu. A depressão se instalou.

Enquanto isso, a esposa, Rose, professora de Filosofia e Sociologia da rede estadual, segurava as despesas da casa. Há 22 anos juntos, ela foi o apoio financeiro e emocional no momento mais crítico. Danilo

 admite que houve um período em que parou até de procurar emprego. “Eu já esperava o não antes mesmo de tentar”, conta.

Foi na cozinha que encontrou algum respiro.

A decisão que mudou tudo

Mesmo desempregado, ele continuava testando receitas. Criava, adaptava, estudava. Cozinhar era uma forma de manter a mente ocupada e o desânimo sob controle.

Quando as contas apertaram de vez e a possibilidade de corte de energia virou realidade, ele tomou uma decisão prática: fazer palha italiana para vender.

No primeiro dia, vendeu R$ 70. Depois, R$ 100. Não era muito, mas era um começo. Com autorização do proprietário do imóvel onde mora, passou a vender também em uma academia próxima. Tentou lanches naturais. Não deu certo. Mudou para empadas. Ajustou receitas. Observou o que funcionava e o que não funcionava.

A virada aconteceu quando decidiu apostar em doces internacionais tradicionais.

O primeiro foi o clássico ópera. A resposta do público foi imediata.

Um nicho pouco explorado

Ao perceber o interesse dos clientes, Danilo identificou um diferencial. Poucos expositores trabalhavam com doces internacionais clássicos nas feiras culturais da cidade. Havia espaço para algo mais elaborado, com história e apresentação cuidadosa.

No caderno que ganhou da esposa, começou a organizar ideias e metas. Escreveu nomes como tiramisù, crème brûlée e cannoli. No início, faltavam recursos. Ele adaptou receitas, ajustou ingredientes, reduziu custos sem comprometer a qualidade. Quando conseguiu investir um pouco mais, elevou o padrão de entrega.

O crème brûlée passou a ser servido em ramequim, com colher de metal. A experiência virou parte do produto.

A primeira banca foi feita com paletes reaproveitados, montada por ele mesmo há cinco meses. Hoje, é dali que sai a renda que paga aluguel, água e luz da família.

Reconhecimento inesperado

O crescimento chamou atenção nas redes sociais. A produção do SBT entrou em contato após conhecer o perfil do negócio. Ele foi convidado para contar sua história e preparar uma receita ao vivo.

Depois vieram matérias no Campo Grande News e no MediaMax. A visibilidade trouxe novos clientes e consolidou a marca.

Em cinco meses, as vendas dobraram.

“A maior lição foi entender que eu sei o meu valor”, afirma. “As empresas podem dizer não, mas isso não define quem eu sou.”

Um negócio construído a dois

Embora o rosto à frente da banca seja o de Chef Dan, ele faz questão de dividir os créditos. Rose não apenas segurou as contas no período mais difícil, como ajudou na organização do Instagram, na postura ética da marca e no planejamento do negócio.

Ele brinca dizendo que ela é a “Marlene Matos” da Xuxa, mas fala sério quando afirma que o empreendimento é dos dois.

“O negócio é nosso”, resume.

Próximos passos

Por enquanto, ele não pretende abrir ponto fixo. As feiras culturais oferecem algo que considera essencial: contato direto com o público. Conversas, troca de experiências e fidelização construída olho no olho.

O plano agora é expandir para eventos, como aniversários e celebrações, levando a finalização de sobremesas ao vivo. O cannoli já está em fase de implementação no cardápio.

O futuro, que antes parecia invisível, hoje é concreto. Melhorar equipamentos, estruturar a produção e ampliar o alcance do negócio estão entre as metas.

A história de Chef Dan é sobre gastronomia, mas também sobre dignidade. Sobre reinventar-se quando o mercado fecha portas. Sobre transformar um momento de queda em ponto de partida.

E, sobretudo, sobre acreditar que talento e trabalho bem feito podem encontrar espaço, mesmo quando tudo parece improvável.