Mesmo com obras avançadas, Rota Bioceânica ainda esbarra em burocracia e desafios alfandegários entre quatro países
Estudo aponta que falta de integração regulatória, entraves aduaneiros e baixa participação privada podem atrasar funcionamento pleno do corredor internacional
Apesar do avanço das obras de infraestrutura da Rota Bioceânica — considerada um dos projetos logísticos mais estratégicos da América do Sul — especialistas alertam que os maiores desafios para o funcionamento efetivo do corredor ainda estão fora dos canteiros de obras. Questões alfandegárias, diferenças legislativas entre os países envolvidos e a necessidade de integração institucional seguem como os principais obstáculos para que a rota opere de forma eficiente e competitiva.
A avaliação é do secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) de Mato Grosso do Sul, Artur Falcette, que destaca que a consolidação do chamado Corredor Rodoviário de Capricórnio dependerá não apenas da conclusão de pontes, rodovias e acessos, mas também da criação de um sistema coordenado entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
A Rota Bioceânica é vista como um projeto capaz de transformar a logística de exportação sul-americana ao ligar o Centro-Oeste brasileiro aos portos do norte do Chile, permitindo acesso mais rápido aos mercados asiáticos. A expectativa é reduzir custos de transporte, diminuir distâncias e ampliar a competitividade de produtos brasileiros no comércio internacional.
No entanto, um estudo apoiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) aponta que ainda existem gargalos significativos relacionados à fiscalização aduaneira, harmonização de normas, segurança jurídica e integração operacional entre os países participantes. O levantamento também chama atenção para a necessidade de maior participação da iniciativa privada no planejamento e gestão do corredor logístico.
“A previsão para a conclusão da ponte segue para o segundo semestre de 2026. No entanto, ainda há um longo caminho até que possamos aproveitar plenamente os benefícios da rota. Existem questões alfandegárias e legislação para serem resolvidas entre os países envolvidos”, afirmou Artur Falcette.
Segundo o secretário, há atualmente um amplo trabalho diplomático, técnico e regulatório em andamento para estruturar as alfândegas e estabelecer procedimentos comuns que garantam maior fluidez ao transporte internacional de cargas. A meta é evitar atrasos nas fronteiras, excesso de burocracia e insegurança para transportadoras e exportadores.
Entre os principais desafios estão a padronização de sistemas de fiscalização, integração tecnológica entre os órgãos de controle, definição de regras tributárias e sanitárias comuns, além da capacitação de equipes que atuarão nos pontos de fronteira. A preocupação é que diferenças operacionais entre os países acabem comprometendo a competitividade da rota.
O estudo destaca ainda que a consolidação do corredor internacional dependerá da capacidade dos governos de criar um ambiente de previsibilidade e confiança para investidores e operadores logísticos. Isso inclui segurança jurídica, estabilidade regulatória e processos alfandegários mais modernos e eficientes.
Para Mato Grosso do Sul, a Rota Bioceânica é considerada estratégica para impulsionar a economia regional, fortalecer o comércio exterior e atrair novos investimentos em logística, transporte e armazenagem. Municípios da faixa de fronteira, especialmente Porto Murtinho, já se preparam para os impactos econômicos e o aumento do fluxo comercial previsto com a conclusão do projeto.
Mesmo com o avanço físico das obras, especialistas avaliam que o sucesso da Rota Bioceânica dependerá diretamente da capacidade de integração política, institucional e econômica entre os quatro países envolvidos.